quinta-feira, novembro 4

desistir

das coisas que eu amo só pra que o resto volte ao seu devido lugar é, agora, quase irresistível.

- se não doesse tanto...

terça-feira, setembro 7

vivendo metades


é engraçado, ser surpreendida pelo destino (ou, deveria dizer, pelo passado) assim no meio da rua. é o tipo de coisa que te obriga a fazer um balanço da sua vida.
entre o dia quatro de setembro de dois mil e nove e o dia quatro de setembro de dois mil e dez a vida me foi mais ou menos como uma temporada de malhação. aconteceu de tudo e tanto que eu não poderia imaginar. mas cada conquista, cada motivo pra me fazer completamente feliz, me parte em duas marias-claras: uma que sabe exatamente o que quer e outra que morre de medo, principalmente, do julgamento alheio.
te ver me fez pensar no que eu perdi e no pensamento que eu tinha de que não existiria mais vida pós essa perda. e ao analisar esse 'pós-perda' eu vi o quanto sou mais feliz hoje do que era antes, quando achava que tinha tudo o que precisava.
hoje eu não tenho tudo o que preciso. e por isso estou completa. sou completa dentro de duas marias morrendo de medo uma da outra.
falta um pedaço de mim, depois de tudo, é certo. um pedaço que troquei pelo mundo, que me esperava e eu não sabia.
mas, enquanto me permito voltar a esquecer que você existe, eu posso me lembrar de todo o resto e de tudo o que pode ou deve me fazer completa - assim, como duas metades. cervejas, sorrisos e muito nankin entre os dedos. são beijos no ombro, preguiças gostosas como tardes chuvosas e preguiças dilacerantes como essa da dúvida que me atormenta.
não sei bem quem sou, nem qual dos dois caminhos das minhas duas marias devo seguir. mas eu sei bem o que não sou mais. e, por enquanto, isso já me é suficiente.

domingo, agosto 29

no começo, não era um incômodo

assim, de fato.
mas, com o tempo, foi se tornando.
foi começando a imaginar tudo o que poderia nunca ter existido. todas as conversas que poderiam ou deveriam ter tido. os sonhos ou a quantidade de estrelas que contaram de uma vez. tudo o que pensaram juntos ou um só deles pensou sozinho. quem saberia.
tudo isso brota da sua cabeça e não se sabe mais o que é verdade ou pura invenção.
e nunca vai saber.

só que é veneno.

quinta-feira, agosto 19





Hilbert: então, sugiro que esqueça tudo isso e vá viver a sua vida.

Harold: Viver minha vida? Estou vivendo. E só quero continuar vivendo.

Hilbert: Falei em viver uma vida completa, por quanto tempo for.Podia tentar viver alguma aventura... inventar alguma coisa ou terminar de ler Crime e Castigo.
Podia viver só de panquecas, se quisesse.

Harold: Você tem algum problema?
Não quero viver só de panquecas. Eu quero viver.
Quem, em sã consciência, entre panquecas e a vida escolheria a primeira?

Hilbert: Se parar para pensar vai perceber que a resposta está ligada ao tipo de vida sendo vivida e, é claro, à qualidade da panqueca.

- Stranger than fiction.

sexta-feira, agosto 6

eu até gosto de Rondônia

e viria mais do que uma vez a cada dois anos se:
1)não fosse tão difícil chegar aqui
2)meu pai tivesse todos os pacotes caros da SKY
3)o clima equatorial úmido não fosse tão quente
4)eu não tivesse uma madrasta (brinks)
5)as pessoas não falassem TÃO ERRADO por aqui.

Eu sou nascida em Rondônia e, de certa forma, me orgulho disso. mas é bem difícil ser bombardeada o dia inteiro, sem querer ser muito chata, mas é o dia inteiro MESMO, com "vou ir lá", "pra mim fazer", "vou ponhar pra você". sem preconceitos, algumas das pessoas que eu mais gosto na vida falam assim - embora eu não tenha muita certeza se gostaria mais delas se fizessem mais uso da santa gramática.
Na verdade, dos quesitos acima citados, o que possui 99,6% da culpa de eu quase não me aventurar por essas terras é a dificuldade de chegar.
para começar, eu nem vim de ônibus (aí seriam cinco dias de puro sofrimento. e só pra piorar eu enjôo até andando de carro da pituba até itapuã). eu vim de AVIÃO. e, se você acha que esse recurso facilitou consideravelmente a minha vida, a resposta é não.
basta eu simplesmente alegar que saí de Salvador, Bahia, às 09:30 da manhã e cheguei na cidade de Ji-Paraná, Rondônia, às 23:30 (o que, considerando o fuso-horário, eram 00:30 em Salvador, ou seja, faça os cálculos).
mas não pára por aí. a brincadeira começou com 1:30 de viagem até São Paulo para 4 horas esperando a conexão.
estava tudo legal enquanto eu tomava umas Devassas no bar, até aparecer um senhor que gostou muito de mim e resolveu me contar toda a série de tragédias da vida dele (que não eram poucas, sinto muito dizer) e eu, como uma boa moça, ex filha de jó, candidata a madre teresa de caucutá, fiquei constrangida em deixá-lo falar sozinho e respondia com incessantes uhuns procurando desesperadamente uma saída para a situação. o milagre, veio dos céus, digo, do teto. foi anunciado que meu portão de embarque havia mudado para o 1B e, mesmo faltando 1:40 para o avião chegar, eu corri imediatamente para lá.
Então, de Guarulhos, cerca de 2 horas de viagem, fazendo, é claro, uma escala de 20 minutos em Campo Grande, até Cuiabá para, tcharam, mais belas 4 horas de conexão.
Eu até tinha me julgado muito esperta por levar meu notebook, por motivos alheios, pois teria com o que me divertir na longa espera das conexões. mas foi nesse dia que descobri que o wi-fi dos aeroportos, tcharam, não é de graça. é para assinantes. e eu quase acreditei na bondade humana. mas, quando acessei o site da speedy (que é o único ao qual se tem acesso sem pagar), apareceu um aviso meigo e fofo de que os passageiros tam, para seu maior conforto durante as conexões, têm acesso a duas horas grátis de wi-fi (fica o aviso). mas poxa, que super supimpa. então tá. saí pelo aeroporto de Cuiabá com o notebook (de 16 polegadas, o que não é nada confortável, posso dizer) à procura de um funcionário da tam que me desse a maravilhosa senha para eu ter meu acesso de graça.
mas adivinha: para o meu pânico, não havia NENHUM funcionário da tam no aeroporto inteiro. é. bom o serviço né? todos os guichês estavam fechados e não tinha nenhum homenzinho vermelho dando sopa pelo caminho. e o que me deu um desespero muito maior do que simplesmente não poder usar o wi-fi, foi finalmente perceber que não havia nenhum vôo da tam anunciado para o resto daquele dia. NENHUM.
depois de cerca de cerca de duas horas me controlando para não aparentar desespero algum e sem encontrar nenhuma cara conhecida dos meus vôos anteriores -era como se minha vida fosse um filme médio de suspense e todo o universo da compania aérea só tivesse existido dentro da minha cabeça - até que uma mocinha apareceu atrás do balcão de vendas. eu corri para lá antes que ela pudesse se desmaterializar para o universo paralelo onde a sua empresa estava funcionando naquele dia e, para parecer natural, perguntei primeiro da senha da internet. ela respondeu apenas "ah, aqui não tem isso não. essa promoção só é válida onde o wi-fi é de graça." sério. eu não consegui controlar o longo e irônico "OI?" então ela corrigiu "onde a tam consegue wi-fi de graça". ah, isso era bem óbvio, né. tá, eu ia ficar sem atualizar meu doce orkut. oh deus. mas aí lembrei e, parecendo o mais natural possível, perguntei como quem não quer nada "eu estou aguardando o vôo 5732, para Ji-Paraná, mas não encontro nenhuma previsão de chegada dele." então ela me olhou ocmo se eu fosse uma completa retardada e respondeu "é porque esse é um vôo de outra compania, a Trip."
AH, CERTO. Acontece que eu nunca comprei uma passagem na Trip. E ninguém se preocupou em momento nenhum em me avisar esse pequeno detalhe. senti vontade de matar alguém. mas não fiz isso. voltei pra sala de embarque e fui assistir o Dvd da Viagem de Chihiro só pra fazer de conta que eu estava usando o inacessível wi-fi e as outras pessoas terem raiva de mim. mas acontece que eu sempre choro assistindo esse filme e não foi muito bonito de minha parte fazer isso no meio do aeroporto. mas tudo bem. acho que depois que você já mofou o suficiente pra ficar íntimo das malditas salas de embarque, acaba perdendo um pouco a inibição.
passaram-se longas duas horas até que meu vôo da Trip foi anunciado. Entrei na fila, não sem antes comprar uma revista super legal na banca (em momento algum das quatro horas anteriores havia me ocorrido fazer isso) e entreguei meu ticket já completamente amassado, rasgado e suado pra moça sorridente que falou "vá andando pela faixa azul, o último avião, à direita."
sabe, Cuiabá tem um daqueles aeroportos minúsculos em que você anda pela pista de pouso até o seu avião. uma coisa que, vou confessar, eu adoro fazer. é muito mais legal do que passar por dentro daqueles tubos prateados de ficção científica.
então tá, lá fui eu andando pela faixa azul, vendo os aviões bonitinhos passarem por mim. o primeiro da fila era um boing 747, imponente, bonitão, o segundo, um ligeiramente menor, o terceiro, ainda menor. e menor. menor. menor. aquilo foi me deixando preocupada. por mais vezes que eu já tenha viajado sozinha (e não foram poucas), continuo tendo medo de avião. é sério.
até que eu parei diante de um avião consideravelmente pequeno, e pensei "ai meu deus que medo. vou viajar nisso." aí outra moça simpática apareceu e falou "vamos, senhora, é o próximo."
é. havia outro avião escondido atrás daquele avião pequeno. e eu não pude vê-lo antes por que ele era realmente muito pequeno. e tinha as hélices fora das turbinas, exatamente como aqueles aviões de filmes de guerra que sempre CAEM. e as pessoas estavam se amontoando para embarcar porque a escada única escada era muito pequena, quase como aquelas de playgrounds. e, quando eu fui na direção dele, a porta da frente estava aberta e eu pude ver que todas as malas dos passageiros estavam AMARRADAS EM REDES, exatamente como nos filmes de guerra.
nesse momento eu comecei a chorar. eu juro. nunca senti tanto medo na minha vida quando subi aquela escada de parquinho e entrei no avião e pude, imediatamente, olhando apenas uma vez, contar a quantidade de lugares existentes, por que ele era mesmo muito pequeno.
no momento em que me sentei abri o folheto que estava no assento e descobri que aquele fofo veículo viajava a 400 km/h, quando um avião cormercial NORMAL voa a 950 km/h, ou seja, estava prestes a viajar 1100 km naquele ultra leve e ainda por cima levar, para isso, o dobro do tempo habitual. e daí que eu continuei chorando. e chorei quando o avião decolou (até tentei um "pai nosso" mas o choro não deixou) e chorei mais um pouco enquanto uma senhora do meu lado, com um cheiro consideravelmente ruim, gritava no meu ouvido "o avião que nóis fumo pra barreto era bem mais maior que esse. era filé qui só". e, enquanto não balançávamos, mas chacoalhávamos numa turbulência eu pensava chorando "´dá pra fingir que estou andando de montanha russa".
mas aí eles serviram o jantar e era um monte de comida chique (vinha em pratinhos de cerâmica, igualzinho às barrinhas de cereal das outras companias) talvez pra gente esquecer que podia morrer a qualquer instante. e, de fato, quando eu me acabei na sobremesa, que era tortinha de limão, eu já havia quase me esquecido que estava quase cagando nas calças meia hora antes e até consegui dormir.
mas isso não muda o fato de eu, por muito pouco, não ter beijado o chão quando pisei em terra firme, em Ji-Paraná, finalmente, Rondônia. e jurei que nunca mais faria outra viagem daquela até, é claro, me lembrar, que eu tinha que voltar da alguma forma pra Salvador e, se quisesse ir de ônibus teria de embarcar no dia seguinte pra chegar a tempo.

Mas, tirando isso, eu até gosto de Rondônia. é sério. sempre que venho vagabundo a maior parte do tempo só pra irritar minha madrasta (não sei se funciona, ela é um poço de paciência), pesco com meu pai pra fazer sashimi fresquinho, como o pão de queijo da minha tia, dou uma revivida na minha infância (com muito cuidado para não passar pela pré-adolescência particularmente traumática), vou a festas que NUNCA iria em outro lugar e posso usar minhas botas de cowboy sem que ninguém ache estranho (óbvio que aí não tem a menor graça).
além do que Rondônia tem pupunha, pinhão e Tuchaua, que eu compro de estoque e bebo como se fosse água mineral até, mais ou menos cinco dias depois, meus olhos começarem a tremer incontrolavelmente com a overdose de guaraná. mas, é claro, eu continuo tomando.
- pra quem não sabe o que é Tuchaua, é o melhor refrigerante do universo, (É SIM) somente encontrado na região amazônica e, dizem as más línguas, foi comprado pela Coca Cola pra se impedir de distribuir no resto do país. Se é verdade, eu não sei, mas eu, que nem gosto de refrigerante, garanto logo o meu estoque quando piso nestas terras.

(esse post é um patrocínio de Tuchaua, o guaraná da nossa terra)

quarta-feira, julho 21

photoshop



eu ainda preciso treinar desenhar com tablet. muito.
até lá, quem sabe eu faço um blog de peripécias desimportantes. tenho pensado nisso.
alguém gostaria de ver?

terça-feira, julho 20

mas

as coisas que desejo ouvir entram em conflito com o meu desejo de que você seja honesto.

terça-feira, julho 6

surpresas - ou não

quando eu ainda era escrava, digo, bolsista da UFBa, minha orientadora requisitou a mim e a outra bolsista que fizéssemos uma coisinha super especial: um favorzinho pro Cônsul da Republica Checa. Diante da boniteza das palavras "cônsul-da-republica-checa", achamos tudo muito legal e resolvemos aceitar.
a nossa missão era organizar uma exposição de arquitetura numa biblioteca.
parecia legal né. mas foi só começarmos pra descobrirmos que não era. e não foi nos designado pela plena confiança que alguém depositava em nós, mas por que ninguém mais teve o menor saco de fazer (como todo o resto que se faz quando se é bolsista).
perdi um final de semana da minha vida (incluindo sexta e segunda feira) pra, depois da inauguração, no dia seguinte, simplesmente pegarem todos os cartazes e encostarem na parede pra dar espaço pras mesas da biblioteca. (quando voltei lá quase chorei com a situação).
taí um final de semana que pensei que nunca teria de volta.
até o dia em que minha ex-orientadora me mandou um email dizendo que o Cônsul havia nos mandado alguma coisa, que ela havia deixado para nós na secretaria da faculdade.
quando eu li 'coisa', pensei imediatamente 'surpresa', que me fez pensar imediatamente em 'presente'. e fiquei feliz da vida, finalmente alguém havia reconhecido meus trabalhos como bolsista.
mas naquela semana eu não pude pegar, nem na seguinte. e finalmente quando fui, a moça me falou que tinha ficado muito tempo lá e ninguém sabia mais onde estava.
imagina minha tristeza. mas ela me prometeu que ia procurar.
passei uma semana lá e nada de encontrar.
hoje, eu estava passando na frente da secretaria e a moça me chamou. oh meu deus, que felicidade, tinham encontrado meu presente! eu fui toda contente, saltitante, cantarolante atrás dela. então ela se vira e me dá um envelope.
poxa, presente no envelope? que decepção.
então pensei, tentando me contentar, ao menos seria um certificado. certificado é legal, vale como horas de atividade extra-curricular (foi extra-curricular, ora, eu não era bolsista pra montar exposição pra ninguém da república checa).
coloquei na bolsa e fui pro estágio.
agora, quando chego em casa e pego o envelope na bolsa, pra colocar na minha pasta de certificados, lembro de abrir pra ler, afinal, quantas horas ele achou que eu mereci de recompensa pelos meus dias de trabalho árduo.
e, tcharã. é uma carta. 'eu, fulano de tal, agradeço pelos trabalhos de fulana.'
ponto final.
fim.
sem nenhuma menção de que eu trabalhei nenhuma horinha. virei nenhuma noite. conquistei nenhuma hérnia levantando suportes pesados. é, meu filho, eu realmente já imaginava que você fosse grato por isso. não precisava se dar ao trabalho de redigir uma carta pra isso.

agradecimento serve pra quê? alguém me diz?

segunda-feira, julho 5

alguma coisa

mudou nos últimos tempos.
sem que eu percebesse, acabou me engolindo.

eu quase não consigo mais respirar.

sexta-feira, junho 4

eu tenho,

no fundo, um certo orgulho em ser um pouco exótica.
mesmo que seja só um pouco.
primeiro tem o lance da minha voz que é "diferente" (tipo aguda a nível insuportável).
segundo o meu cabelo que eu teimo em tentar deixar cacheado (ele não é), o que acredito, a maior parte do tempo, que seja bonito. tipo confundir desarrumado com despojado. (mas sou persistente e não faço uma escova há exatos três anos, seis meses e catorze dias - sei porque a ultima foi obrigada pela minha mãe pra minha formatura).*
e, terceiro, o incrível, mirabolante e mais exótico fato de eu ser de Rondônia.
é claro que, pra minha família e em Rôndonia isso não tem absolutamente nada de exótico.
mas, ao que parece, em qualquer estado que não seja do a)norte b)centro-oeste c)Bolívia, você ter nascido em Rôndonia é quase mais esquisito do que ter nascido em Marte.
dessa forma, todos os primeiros diálogos que tive com todas as pessoas que conheci nos últimos seis anos são basicamente a mesma coisa:

- seu sotaque é diferente, você não é daqui, é?
- não, sou de Rondônia.
- nossa! sério?
- sério.
- você tá brincando! Rondônia não existe. (aponta pra mim) Olha só, gente, ela é de Rondônia.
- existe sim. eu nasci lá.
- nooooossa. mas o Acre não existe.
- eu conheço várias pessoas do Acre.
- uaaaauuu, que sinistro!


e por aí vai.
eu dou um sorrisinho amarelo e me preparo para julgar o nível de inteligência/conhecimentos gerais de um indivíduo a partir das próximas perguntas que ele me fizer: se a)ele me pergungar se eu morava em ocas, é um babaca b) se me perguntar se conheço algum índio, está no caminho certo para ser babaca e c)perguntar simplesmente como é lá, vai parecer alguém interessado e que sabe que lá não é o cenário do Livro da Selva - até porque, não tem nenhum tigre dando sopa na Floresta Amazônica, que eu saiba.
mas isso não me incomoda. às vezes eu gosto de assustar as pessoas informando-lhes quanto custa uma passagem de avião pra lá ou dizendo-lhes que conheci energia elétrica com catorze anos (nossa, sou tão engraçada). e que, até hoje, não tem McDonalds lá (já tem?) - por que, é claro, essa parece ser a convenção universal para se medir o nível de civilização de um lugar (alô, né).

___
*putaquepariu já faz todo esse tempo que me formei no ensino médio? como sou velha.

segunda-feira, maio 10

essa última semana

na Pesquisa vai ser um teste de paciência. por mais que eu gostasse do meu trabalho (teve uma época que gostei, juro), apenas o fato de saber que se vai sair torna tudo insuportável. o estacionamento vira uma droga. o elevador quebrado tem que ir pra puta que pariu e aquele professor que não te deixa se concentrar deveria ter continuado doente. mas, no final das contas, vou tirar um grande aprendizado da Pesquisa, por exemplo, ser a única pessoa da minha faculdade a saber o que é um Tombamento (e não estou falando de prédios caindo) e a dormir sentada fazendo com que pensem que você está lendo algo no computador (tá, também aprendi outras coisas).
a impaciência (bem como a preguiça) faz de mim uma pessoa vil, eu sei.
mas estou exercitando virar um pouco budista até segunda feira que vem, os últimos árduos passos pro meu teoricamente emprego dos sonhos (não quero falar cedo demais). hoje, por exemplo, aprendi lições extremamente interessantes, tipo que quando se assiste Malhação você acaba agradecendo a Deus por ter um emprego.
Chorei de rir, digo, de emoção com o Fiuk. Aprendi, ainda com Malhação, que, se um estranho me parar na rua e me chamar pra ir pra Nova York amanhã, eu devo aceitar imediatamente.
Mas os sucessos globais não param por aí. Hoje me tornei uma digna brasileira assistindo Estrela Guia, digo, Escrito nas Estrelas e aos melhores momentos da lua de mel de Lu e Miguel.
É claro que eu não perderia a última emocionante semana dessa super produção, né? Esperar ansiosamente as falas dos figurantes nº 769 e 853, como todo mundo se arranja no final e, se não tiver cachê para contratar o figurante nº12098, a véia encalhada vai voltar pro marido. A construir meu caráter com o depoimento no final. Que estou pagando pra conhecer um arquiteto que passe o dia inteiro de paletó e gravata. E me indignar como a Mia não vai dar no final da novela só porque é adotada.
Depois Manoel Carlos se diz politicamente correto. tsc tsc.

Tá vendo tudo o que eu estava perdendo trabalhando?
o único sucesso global que perdi hoje foi a comovente trama do casal Bernado e Betina... digo Leo e Nanda... digo... ah, esquece.

sexta-feira, abril 30

O azar

sempre foi uma coisa constante na minha vida.
Tão constante que, quando terminei de escrever esse post, o apaguei sem querer e estou escrevendo de novo.
Sério, já criança eu tinha o hábito de pensar que eu não podia ter nada que fosse muito legal e todo mundo tivesse, porque o meu daria um jeito de não funcionar ou vir com defeito.
O meu primeiro banco imobiliário, que esperei meses pra ganhar de aniversário, era pobre: veio só com notas de um real. Imagina quando eu abri a caixa ansiosamente e não tinha nenhuma outra corzinha além de cerca de trezentas notas azuis.
O meu primeiro celular incrível (e, depois disso, o único) com mp3, câmera, colorido estilo morfador dos power rangers, eu acertei um modelo da nokia que teve problema de série e o lote inteiro foi recolhido. O meu, claro, nunca foi ressarcido.
A minha dentista já me esqueceu, duas vezes na sala de espera do consultório, só se lembrando de mim quando saiu da sua sala para ir embora.
E isso me persegue até os dias de hoje.
Quer uma prova?
O meu carro.
Poxa, eu amo ter carro, amo completamente meu singelo bichinho azul escuro, mas nem dessa vez o meu azar me deixou em paz.
Quer que eu prove?

Tudo começou... no início. Quando o consórcio foi contemplado, eu ainda não tinha 18 anos. Meu pai sofreu um acidente na mesma época e o dele deu perda total e, como estava tendo problemas com o seguro, pegou o meu carro e, com o tempo, acabou se apropriando dele.
Mas tudo bem, eu não me importava.
Quando finalmente o ganhei de fato, dois anos depois, meu pai, que é absolutamente maravilhoso, resolveu colocar ar condicionado pra trazê-lo de Rondônia até aqui.
Mas o ar condicionado não chegava. As férias do meu pai iam acabar e ele não poderia trazer meu carro porque o ar condicionado não tinha chegado.
Eu já havia até me conformado com a minha condição vitalícia de usuária do Salvador Card, quando ele, que é a pessoa mais legal do mundo, resolveu o problema: colocou um ar condicionado de outro carro, de pálio, por que era parecido e dava certo.
Então tá, imagine a felicidade quando finalmente, com dois anos e um mês de atraso meu pai me entregou a chave e eu fui comprar limão do outro lado da cidade, só pra passear mais com o meu novo xodó.
A vida era perfeita como nos filmes da Lindsay Lohan.
Não.
No dia seguinte à sua chegada, o meu carrinho deu pane geral. Pois é, meio dia, Stella Maris, nenhum centímetro de sombra num raio de 100 metros e meu carro não funcionava.
Foi só aí que descobri que ele veio com um problema de fábrica (claro que tinha que vir de problema de fábrica, havia sido comprado pra mim) que não reconhecia o código da chave e como, embora não estivesse em minhas mãos, o carro teoricamente era meu, ninguém se lembrou de consertar.
Então o levamos à Fiat e o prazo do conserto era de (tcharã) trinta dias. Isso porque se tinha que trocar várias peças que viriam de muito longe e (que prático!) uma de cada vez.
Foi o mesmo que dar o doce e tirar da boca da criança.
Mais uma vez eu morri na praia.
É claro que, sendo meu, o carro só foi entregue quarenta e cinco dias depois e não trinta, como haviam falado. Eu o busquei feliz da vida, finalmente encarnando o meu papel de filme da Lindsay Lohan com meu brinquedinho turbinado.
Você já deve estar cansado, mas ainda não acabou.
É claro que isso não duraria muito tempo. Na verdade, menos de 24 horas. Eu o peguei no sábado à tarde e, no domingo à noite, o ar condicionado parou de funcionar.
Se lembra que eu falei que o ar condicionado não havia chegado e foi substituído por um de outro carro? Pois é.
Então, com mais essa dor de cabeça, o levei numa oficina especializada em ar condicionado (como não havia sido colocado na Fiat, deram de ombros pra ele) e disseram que ou foi mal colocado ou, quando consertaram a história da chave, o quebraram abrindo o painel. Como eu não tinha como provar se era uma coisa ou outra, o conserto saiu do meu belo bolso.
130 reais e um dia depois, eu recuperei meu bichinho azul escuro em perfeito estado, mas já não convencida de que essa situação permaneceria por muito tempo.
Nada de fusquinhas e finais felizes pra mim.
Exatamente 18 dias depois, o ar condicionado transformou meu carro numa sauna de novo.
Eu vooooooooooltei à oficina e me disseram que isso já havia sido previsto, que fazia parte de identificar o lugar onde o aparelho estava quebrado.
Tá bom.
Dois dias depois (hoje) eu saio da oficina com a previsão, segundo os técnicos, de que brevemente ele irá parar de funcionar de novo e, finalmente, dessa vez saberão diagnosticar o problema porque colocaram um contraste que vai apontá-lo quando acontecer.
Bala.
Pois bem, eu estava hoje já acostumada com a minha vida de pequeninos infortúnios, me convencendo de que, se tudo desse muito certo, aí é que alguma coisa estaria errada.
E foi nesse momento que, na Avenida ACM, às duas horas da tarde, uma ambulância do SAMU veio, com a sirene ligada, e bateu no meu fundo.

Pois é, está triste por andar de ônibus, a pé, bicicleta?
Não fique, meu bem.
Mas a vida está maravilhosa demais hoje pra eu me importar, afinal, se absolutamente tudo desse muito certo não seria minha vida, seria um filme da Lindsay Lohan.

segunda-feira, abril 19

Instrucciones-ejemplos sobre la forma de tener miedo

En un pueblo de Escocia venden libros con una página en blanco perdida en algún lugar del volumen.
Si un lector desemboca en esa página al dar las tres de la tarde, muere.
En la plaza del Quirinal, en Roma, hay un punto que conocían los iniciados hasta el siglo XIX, y
desde el cual, con luna llena, se ven moverse lentamente las estatuas de los Dióscuros que luchan con sus caballos encabritados
En Amalfí, al terminar la zona costanera, hay un malecón que entra en el mar y la noche. Se oye ladrar a un perro más allá de la última farola.
Un señor está extendiendo pasta dentrífica en el cepillo. De pronto ve, acostada de espaldas, una diminuta imagen de mujer, de coral o quizá de miga de pan pintada.
Al abrir el ropero para sacar una camisa, cae un viejo almanaque que se deshace, se deshoja, cubre la ropa blanca con miles de sucias mariposas de papel.
Se sabe de un viajante de comercio a quien le empezó a doler la muñeca izquierda, justamente debajo del reloj de pulsera. Al arrancarse el reloj, saltó la sangre: la herida mostraba la huella de unos dientes muy finos.
El médico termina de examinarnos y nos tranquiliza. Su voz grave y cordial precede los medicamentos cuya receta escribe ahora, sentado ante su mesa. De cuando en cuando alza la cabeza y sonríe, alentándonos. No es de cuidado, en una semana estaremos bien. Nos arrellanamos en nuestro sillón, felices, y miramos distraídamente en torno. De pronto, en la penumbra debajo de la mesa vemos las piernas del médico. Se ha subido los pantalones hasta los muslos, y tiene medias de mujer.

- Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas

quinta-feira, abril 15

"Em fins dessa semana, sem ter conseguido ter um minuto de sossego, escreveu-lhe a primeira carta. Foi uma missiva convencional, onde lhe contava que o vira sair do hotel, e que teria gostado que ele a visse.
Esperou em vão uma resposta. Ao fim de dois meses, cansada de esperar, mandou-lhe outra carta no mesmo estilo enviesado da anterior, cuja única intenção parecia ser a de censurar-lhe a falta de cortesia. Seis meses depois tinha escrito seis cartas sem resposta, mas conformou-se com a prova de que ele estava a recebê-las.
Dona pela primeira vez do seu destino, Angela Vicario descobriu então que o ódio e o
amor são paixões recíprocas. Quantas mais cartas mandava, mais atiçava as brasas da sua febre, mas também mais aquecia o rancor feliz que sentia contra a mãe. "Revolviam-se-me as tripas só de a ver", disse-me, "mas não a podia ver sem me lembrar dele." A sua vida de casada devolvida continuava a ser tão simples como a de solteira, sempre a bordar à máquina com as amigas, como antes fazia tulipas de pano e pássaros de papel, mas quando a mãe ia deitar-se, ela ficava no quarto a escrever cartas sem futuro até quase de manhã. Tornou-se lúcida, imperiosa, senhora da
sua vontade, e voltou a ser virgem só para ele, e não reconheceu outra autoridade senão a sua, nem mais servidão que a da sua obsessão.
Escreveu uma carta todas as semanas durante meia vida. "às vezes não me lembrava que
dizer", disse-me morta de riso, "mas bastava-me saber que ele as recebia." A princípio foram cartões de cerimônia, depois foram pequenos papéis de amante furtiva, bilhetes perfumados de noiva fugaz, memoriais de negócios, documentos de amor, e por último foram as cartas indignas de uma esposa abandonada que inventava doenças cruéis para obrigá-lo a voltar. Uma noite de bom humor entornou-se-lhe o tinteiro por cima da carta acabada de escrever, e em vez de rasgá-la acrescentou um post-scriptum: "Como prova do meu amor mando-te as minhas lágrimas." De quando em vez, cansada de chorar, zombava da sua própria loucura.
Seis vezes foi substituída a funcionária dos correios, e seis vezes ganhou a sua cumplicidade. Só não lhe passou pela cabeça uma coisa: renunciar. E, no entanto, ele parecia insensível ao seu delírio: era como se escrevesse para ninguém.
Uma madrugada de ventos, pelo ano décimo, acordou-a do sono a certeza de que ele estava nu na sua cama. Escreveu-lhe então uma carta febril de vinte folhas, na qual soltou sem pudor as verdades amargas que trazia apodrecidas no coração desde a noite funesta. Falou-lhe das cicatrizes eternas que ele deixara no seu corpo, do sal da sua língua, do rastilho de fogo da sua verga africana. Entregou-a à funcionária dos correios, que ia à sexta-feira à tarde bordar com ela para levar-lhe as cartas, e convenceu-se de que aquele desabafo final seria o derradeiro da sua
agonia.
A partir de então já não tinha consciência do que escrevia, nem sabia de ciência certa quem escrevia, mas continuou a escrever sem tréguas durante dezessete anos.
Num meio-dia de Agosto, estava ela a bordar com as amigas, sentiu que alguém chegava à porta. Não precisou de olhar para saber quem era. "Estava gordo e começava a cair-lhe o cabelo, e já usava óculos para ver ao perto", disse-me. "Mas era ele, gaita, era ele!" Assustou-se, porque sabia que a via tão decaída como ela o via, e não acreditava que tivesse dentro de si tanto amor como ela tinha para suportar isso. Vestia uma camisa empapada em suor, como quando o vira pela primeira vez, e trazia a mesma correia e os mesmos alforjes de couro cru com enfeites de prata.
Bayardo San Román deu um passo em frente, sem ligar às outras bordadeiras atônitas, e
pousou os alforjes sobre a máquina de costura.
- Ora bem - disse -, aqui estou eu.
Trazia a mala da roupa para ficar, e outra mala igual com quase duas mil cartas que ela lhe escrevera. Estavam arrumadas por datas, em maços atados com fitas às cores, e todas por abrir."

- Gabriel García Marquez, Crônica de uma morte anunciada

Acho

que na verdade nunca vou deixar de ser aquela menina de 11 anos que ficou de pé na janela, escondida pelas persianas, vendo o seu carro ir embora.
Tudo o que tenho e faço na minha vida não passa nunca de uma tentativa tosca de tentar deixar de ser. Mas a verdade é que tudo isso me cai bem, me cai melhor do que qualquer outra coisa.

É engraçado

como esse sentimento me cai bem. Engraçado que seja uma das sensações mais familiares que tenho na memória – quando ela vem, eu me sinto quase como que em casa.
Só que numa casa grande demais onde eu não caibo, em lençóis onde me reviro e meus pensamentos maldosos não me deixam dormir.
E, nessas horas, tudo vem e me faz lembrar por que eu sempre me senti assim antes, e também com que me sinta boba por ter acreditado, mesmo que por pouco tempo, que poderia ser diferente. É mais fácil, dadas as qualidades sociais que disponho, ser assim.
Só é mais difícil conseguir dormir ou levantar-me da cama pela manhã, quando tais pensamentos me surpreendem. Mas tudo não passa de uma questão de me acostumar a eles. E, quando me acostumar, eu vou apenas voltar a ser eu mesma.
Tudo o que eu queria agora era voltar a ser numa versão um pouco diferente – uma versão que não se importasse de verdade com tudo isso.
Hilbert: então, sugiro que esqueça tudo isso e vá viver a sua vida.

Harold: Viver minha vida? Estou vivendo. E só quero continuar vivendo.

Hilbert: Falei em viver uma vida completa, por quanto tempo for.
Podia tentar viver alguma aventura... inventar alguma coisa ou terminar de ler Crime e Castigo.
Podia viver só de panquecas, se quisesse.

Harold: Você tem algum problema?
Não quero viver só de panquecas. Eu quero viver.
Quem, em sã consciência, entre panquecas e a vida escolheria a primeira?

Hilbert: Se parar para pensar vai perceber que a resposta está ligada ao tipo de vida sendo vivida e, é claro, à qualidade da panqueca.

- Stranger than fiction.

quarta-feira, abril 14

houve um tempo

em que atribuía os acontecimentos do meu dia às minhas meias - as amarelas me trariam risadas, as verdes chuvas, as azuis dias ruins e as brancas me faziam ganhar algum dinheiro (eu não tinha muitas brancas).
isso, logicamente, passou junto com a minha infância, mas ainda tenho o hábito de atribuir os fatos aos pequenos detalhes em vez de atentar-me a eles como sina, destino ou algo do gênero. pode ser a cor do meu esmalte, o que esqueci em casa hoje, até a marca de desodorante que mudei, qualquer coisa que altere o equilíbrio do meu universo vai fazer outra transbordar em outro lado. pegar um ônibus diferente sempre me fazia um pouco mais feliz, acreditar que as pessoas me confortavam também.
antes a chuva me trazia sorrisos. hoje ela é um amigo conivente, que não permitiria um sol bobo justamente agora.

domingo, abril 11

mas

essa chuva e o seu café da manhã fazem a semana toda valer a pena.

quinta-feira, março 25

Holly: You know those

days when you get the mean reds?

Paul: The mean reds, you mean like the blues?

Holly: No. The blues are because you're getting fat and maybe it's been raining too long, you're just sad that's all. The mean reds are horrible. Suddenly you're afraid and you don't know what you're afraid of. Do you ever get that feeling?

Paul: Sure.

Holly: Well, when I get it the only thing that does any good is to jump in a cab and go to Tiffany's. Calms me down right away. The quietness and the proud look of it; nothing very bad could happen to you there. If I could find a real-life place that'd make me feel like Tiffany's, then - then I'd buy some furniture and give the cat a name!

- Breakfast at Tiffany's

domingo, março 21

como lidar com maria tarrafa

nunca me chame de clarinha.
não coloque ketchup no macarrão.
não diga "tá certo".
não me pergunte porque não pinto as unhas de vermelho.
não grite comigo.
se eu não atender o telefone, NUNCA ligue mais do que duas vezes, eu juro que vou ficar instantaneamente com preguiça de retornar.
não me fale sobre a última prova do líder do big brother.
se eu disser "tá certo" é porque, certamente, não está.
não lixe as unhas na minha presença, sou inclinada a ter gastura.
e, lembrando, nunca, nunca mesmo, me chame de "clarinha".

quinta-feira, março 18

eu acho que

no fundo, até já esqueci como é que era minha vida quando era daquele jeito. eu não tinha muito pra sorrir, mas do pouco, quase tudo era você. agora nada de telefonemas - sequer telefones. sequer endereços. sua vida é só um álbum de fotos dos meus 13 anos na minha. são as cartas que guardei (todas elas, inclusive as que não te enviei) e as estrelas que esquecemos sobre aquele trapiche - depois de todos esses anos, elas ainda estão lá.
eu sou mais feliz agora: esquecer dessas coisas a maior parte do tempo e o tempo que me fez esquecer me fez bem, meu bem. mas eu sinto saudades, sabe? dos olhos verdes e dos conselhos da madrugada que eu nunca soube responder à altura. eu sabia o quanto sentiria falta, eu só não podia mais conviver com todo o meu egoísmo.

meu quarto

sem cor ficou tão grande.

quarta-feira, março 17

eu adoraria

se você surgisse na minha porta todas as noites e me abraçasse assim, no escuro, pra que todo o resto do mundo se diluísse no cheiro de sabonete do seu ombro direito.

quinta-feira, março 11

é tempo

de colocar minha vida na balança.

segunda-feira, março 8

depois de

cinco dias no inferno dentro da minha cabeça (e do meu útero com suas cólicas menstruais) tudo o que eu preciso é do seu beijo no meu ombro no final de semana.

não é que minha felicidade custe pouco - é que nos últimos meses ela tem tido também o seu nome.

quinta-feira, março 4

Quando eu tinha

mais ou menos cinco anos, meu pai me contou, depois de eu cortar o dedo, pra eu parar de chorar, que mais ou menos quando tinha a minha idade foi ao circo e voltou de lá com um elefante que ganhou no sorteio. Um elefante de verdade e não algum desses que eu pudesse ter de brinquedo, que ele veio montando e mostrando pra mãe, que desmaiou em seguida. Eu ficava maravilhada, contava vantagem na escola que meu pai era o único que teve um elefante. E as outras crianças morriam de inveja. E o fazia contar repetidas vezes, e a história sempre acabava crescendo em absurdos detalhes, talvez por não se lembrar da primeira versão, talvez por se empolgar achando que merecia mais emoção. Quando ele apagava as luzes eu esquecia o medo do escuro e dormia orgulhosa pensando no meu pai que tivera um elefante.

segunda-feira, março 1

- ela amava você?

- somente como uma extensão de si mesma.

- o que mais pode ser o amor?

- o senso comum de querer muito alguma coisa muito boa. não se precisa estar relacionado com laços de sangue. pode ser uma bola de praia vermelha ou uma fatia de torrada de manteiga.

- você está querendo dizer que você pode AMAR uma fatia de torrada com manteiga?

- somente algumas, senhor, em determinadas manhãs. sob determinados raios de sol. o amor chega e vai embora sem avisar.

- é possível amar um ser humano?

- é claro, especialmente se você não os conhece muito bem. eu gosto de olhar para eles através da minha janela, caminhando na rua.

(Madrugada sempre me deixa com vontade de ler Bukowski)

quinta-feira, fevereiro 25

e me surpreendeu

outra coisa.
eu adoro não lembrar.

passado

e hoje me surpreendi ao me surpreender uma lembrança sua:
eu não me lembrava de você.

terça-feira, fevereiro 23

hoje

danço uma valsa no seu grande salão.

domingo, fevereiro 21

o problema é ser

tão intensamente com todas as letras e todos os sinais tão na cara.
é exatamente tudo o que se evita e transborda o tempo todo pelos cotovelos. é ter a felicidade agoniada, sufocada pra ir usando aos pouquinhos.
eu preciso (te) beber em goles lentos quando o meu desejo era virar tudo goela abaixo como uma dose de qualquer coisa amarga. eu queria era tudo ao mesmo tempo, duma vez só, num turbilhão frenético pra que tudo acabasse depressa (ou nunca) antes que eu precisasse suportar o que vem depois. antes que eu me deparasse com os domingos de tédio e as meias horas que tendem ao infinito. mas eu preciso viver aos (pequenos) goles. - como se até minha cerveja falam que eu tomo muito depressa?

sábado, fevereiro 20

eu tenho

saudades muitas de umas poucas coisas.
saudades poucas de quase nada.
e outras saudades que eu tenho sempre.

sexta-feira, fevereiro 5

terça-feira, fevereiro 2

terça-feira, janeiro 26

starman

é sempre você, astronauta.
é sempre você o silêncio, as lágrimas. quase sempre as noites em claro.
por que, não é, querido astronauta?
o por quê de tantos silêncios são os tantos silêncios.
a razão de tanta falta é essa tanta falta que você me faz.
ah, astronauta. você é assim, exatamente tudo o que eu não tenho.
talvez devesse ter, talvez lhe devesse deixar seguir, talvez devesse ligar às três da manhã quando estou pensando em você.
mas aí o meu mundo deixaria de fazer sentido quando essas outras coisas todas começassem a fazer.

domingo, janeiro 17

A sensação

de perda escorre pelas pontas dos meus dedos. Transborda pelos meus cotovelos.
É uma dor mais física do que nunca.
Eu nunca sei o que fazer com ela – não importa quanto tempo passe, eu nunca vou saber.
Cada última vez é sempre definitiva, vai morrendo em mim um pedacinho de você. Eu nunca vou te alcançar, não importa o quanto eu tente, ou se eu tentar ou não. Há tanto tempo comecei a te perder que essa é a única coisa que realmente tenho prática em fazer.
Eu ainda estou atrás das persianas, vendo o carro sair da garagem no meio da noite, sabendo que você não me vê. Eu ainda estou lá, como se ainda tivesse onze anos, afinal de contas, e você continua se afastando. Eu sempre soube que não iria voltar.

O sol está nascendo e eu ainda não estou nesse dia novo que nasce com ele. Ainda estou morrendo ontem. Anteontem. Morrendo a cada dia em que não falo com você. A cada carta que lhe escrevo sabendo que nunca vai ler.

quinta-feira, janeiro 7